A população da Terra passou de 1,6 bilhões para 6,7 bilhões de habitantes. Um número inacreditável para Thomas Malthus, um famoso economista britânico, cuja teoria simplificada dizia que uma população crescia mais rápido que a produção de recursos. O principal recurso necessário para crescimento de uma população é o alimento. O aumento na produção de alimentos só foi possível, contrariando a teoria de Malthus por meio da inovação tecnológica. Essa inovação tecnológica ocorreu num processo chamado de Revolução Verde. Uma das principais conquistas tecnológicas do homem neste processo foi o domínio das técnicas de fertilização do solo. O principal nutriente para as plantas é o nitrogênio. Esse elemento tão comum na atmosfera da terra na forma de gás nitrogênio N2 não pode ser aproveitado pelas plantas. Isso porque as plantas só conseguem absorver o nitrogênio na sua forma orgânica NOx. Nem sempre o nitrogênio orgânico é abundante no solo, e sucessivas safras podem acabar por exaurir sua disponibilidade no solo. A grande inovação nessa área foi à descoberta do químico alemão Fritz Haber (Premio Nobel de 1918). Ele descobriu como transformar o N2 abundante na atmosfera em nitrogênio orgânico, na forma de amônia - principal ingrediente dos fertilizantes sintéticos.
A Terra parecia não estar preparada para tal aumento na população humana. Além das consequências sociais e ambientais causadas pelo próprio aumento da população, o uso do nitrogênio como fertilizante de maneira desordenada também trouxe grandes e graves consequências para o ambiente. Numa época em que se fala muito sobre o CO2 e aquecimento global, o nitrogênio ficou em segundo plano. A primeira consequência da contaminação dos corpos d’água é a eutrofização ou floração de algas nocivas. O problema do uso exagerado de fertilizantes tende a se agravar com o surgimento de novas economias. No passado ele estava restrito a América do Norte e a Europa. Agora, América do Sul, China, Índia e alguns países da África já sofrem as consequências do uso exagerado de fertilizantes. Os fertilizantes não são o problema, mas sim a forma como estão sendo utilizados. Em muitos casos os agricultores utilizam esses fertilizantes em excesso, o que aumenta o custo de produção e também acaba por prejudicar o meio ambiente, sem que isso acarrete um aumento na produção da lavoura. Muitas vezes os fertilizantes são disponibilizados no solo na época das chuvas, então grande parte acaba por ser lixiviado para rios e lagos. Em algumas culturas até 50% do nitrogênio aplicado no solo é imediatamente perdido para os corpos d’água e atmosfera, contribuindo em alguns casos para a formação das chamadas Zonas Mortas. Em outros casos o agricultor acaba por fertilizar toda a área de plantio, quando na realidade apenas uma parte dela precisava ser fertilizada.
Atualmente as atividades humanas respondem por emissões de compostos nitrogenados da ordem de 181 milhões de toneladas/ano, mais que o dobro das fontes naturais como atividade de bactérias no solo, raios e vulcões com cerca de 90 milhões de toneladas ano. O nitrogênio na forma de NO (oxido nitroso) é um dos principais gases do efeito estufa. Se comparado com o CO2 uma única molécula de N2O tem aproximadamente 300 vezes mais potencial para aquecimento. Entretanto a resposta para esse problema não é tão simples, porque o N2O também pode reagir com outras substâncias na atmosfera, formando aerossóis que refletem a radiação incidente, diminuindo a temperatura. Além disso, os aerossóis formados podem fertilizar florestas pobres em nitrogênio, fazendo com que estas cresçam mais e consequentemente absorvam mais CO2.
Novas tecnologias podem ajudar os agricultores no manejo correto de fertilizantes. Colheitadeiras integradas ao GPS (Global Positioning System) podem indicar ao agricultor onde o solo carece de nutriente. Os alimentos orgânicos também são uma opção por utilizarem adubo orgânico. Além disso, bactérias endofíticas que colonizam os tecidos vegetais e são capazes de disponibilizar o nitrogênio da atmosfera para a planta podem ser uma alternativa ao uso de fertilizantes.
Mas a humanidade ainda dependerá dos fertilizantes sintéticos para garantir a produção de alimentos para uma população que não para de crescer. A melhor utilização desse recurso poderá garantir a sustentabilidade da produção de alimento sem comprometer o meio ambiente.
Fonte: Scientific American Brasil, Março de 2010.
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Por M.Sc. Wellington Matos e M.Sc. Clicia Grativol (UFRJ)









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