Formação x Informação: a importância do professor leitor
* por Lilian Oliveira
Muito se fala nos ambientes escolares em que os alunos não conseguem compreender pequenos enunciados que são postos pelos professores de diversas disciplinas em atividades, provas e trabalhos. Contudo, se questionarmos que tipo de estratégias metodológicas estão sendo utilizadas pelos educadores, podemos perceber que muitos, após completarem sua formação, não usufruem dos diversos recursos que as instituições dispõem.
Após realizar um ano de estágio na sala de leitura de uma escola da rede municipal do Rio de Janeiro, observei que as prateleiras de livros pedagógicos permaneciam intactas. Além disso, os professores não utilizavam a diversidade de títulos infantojuvenis que mensalmente eram enviados para complementar o acervo. Surge então a pergunta: são os nossos alunos que não se interessam pelo “mundo das palavras” ou nós, professores, que permanecemos engessados em nossa formação?
Nessa perspectiva, Ezequiel Theodoro da Silva (in Santos, 2009) afirma que a leitura é o fator determinante da identidade do professor. Sendo assim, o primeiro passo para que os alunos apresentem bom desempenho no tocante à leitura, é a existência de professores leitores. Infelizmente, ainda há um grande número de docentes que se atém a “dicas” e/ou propostas metodológicas contidas nos livros didáticos, o que resulta no esvaziamento de conhecimentos significativos que podem tornar a sala de aula um local interessante para o aluno.
Dessa forma, compreende-se que o professor leitor tem boas ideias, novas estratégias de ensino, de modo a veicular o conteúdo sistematizado com os conhecimentos sócio-culturais já construídos pelos alunos. Podemos concluir então que, uma vez que ler é um exercício fundamental na vida de qualquer pessoa, deve ser primordial para aqueles responsáveis pela perpetuação de sujeitos efetivamente leitores. Assim, é necessário desmitificar o conceito de formação enquanto “estar em uma forma” e nos “in-formarmos”, ou seja, estarmos sempre inseridos em novas e diferentes formas de trabalhar com nossos alunos.
* Lilian Oliveira é pedagoga, professora e pós-graduanda em “Literatura Infantil e Juvenil: leitura e ensino”.
O que é literatura?
por Wagner do Nascimento
“A Literatura é arte e só pode ser encarada como arte.” (Doutrina da arte pela arte, fins do século XIX)
Aurélio: literatura sf. 1. Arte de compor trabalhos artísticos em prosa ou verso. 2. O conjunto de trabalhos literários dum país ou duma época. Ao pensar em literatura, logo nos vem à mente a estética, a forma. Porém, literatura está além dessas formas, além de pertencer a alguma Escola. Ela é arte e, por ser arte, a si se completa, se basta. A literatura não precisa de ninguém para existir. Ela por si se sustenta e se mantém. Atravessa e ultrapassa os bons e maus tempos. Presencia batalhas, guerras, glórias e inglórias e lá está plena, segura.
Às vezes, altiva, mas sem ser soberba, como o amor; outras, nem tanto. Com ela, rimos, choramos como em nossas próprias vidas. Ela é a vida, a vida ali transmitida por meio de pequenas letras que, a partir de sua junção, começam a ficar corpulentas e significativas. À medida que se juntam, sua significação se amplia tanto que passa a ter plurissignificações.
Ela alça o céu e vai além deste, mas é humilde. O valor que ela tem é dado por poucos de nós, seus apreciadores. Somos honestos nesta consideração, só isso, nada de puxasaquismos. Afinal, ela nos dá o que de mais precioso tem – sua essência e não meramente suas letras, suas palavras. Essas encontramos em qualquer dicionário, em qualquer gramática.
Por outro lado, a literatura não. Com muita habilidade, transforma esses pequenos seres em seres maiores, intensos, cheios de elegância, de alegria, de cor, de beleza, de amor, de dor, de sofrimento e, sem ser pretensiosa, nos ensina e nos transforma também. Sua significação é tamanha que às vezes se torna surreal, incompreensível. É popular, erudita, séria, engajada, comprometida, mas também é brincalhona, descomprometida, frugal, como os momentos mais doces de uma infância.
Dessa forma, ela é tudo isso e mais. Ela alimenta nosso espírito, nos eleva a estima, nos impulsiona, nos emociona, nos conduz, nos direciona, nos aciona para este mundo amplo, fragmentado, vivo, inconstante, vibrante. Sem sequer darmos um passo, vamos aos lugares mais longínquos e numa velocidade que nenhum foguete consegue alcançar, e melhor, sem turbulências. Não é preciso bagagem nem mesmo passagem. Basta fechar os olhos e a viagem começa. Isso é magia.
* Wagner do Nascimento é professor e pós-graduando em Literatura Infantil e Juvenil: leitura e ensino.
por Íris Simões Bezerra*
Érico Veríssimo diz que “existem dois tipos de viajantes: os que viajam para fugir e os que viajam para buscar”. E uma obra literária nos serve tanto para fugir como para buscar. É uma verdadeira máquina de tele-transporte. Isso porque nos leva de um lugar a outro na velocidade do pensamento, pois, no instante em que lemos a palavra Paris, logo vem a imagem da Torre Eiffel, ou do Arco do Triunfo, mesmo que nunca tenhamos saído do Brasil. Esta magia da Literatura acontece através do conjunto de palavras que formam a obra. Cada obra tem seu teor de complexidade e encantamento baseado no público a que se pretende atingir.
É um espetáculo inteiro que pode ser visto apenas por um espectador, e este deve ser conquistado a cada palavra lida, com uma imensidão de significados para serem refletidos na pausa rápida entre um capítulo e outro. Se o leitor não se interessa e deixa o livro de lado, aquela obra perde o sentido da própria existência. E lá se vai a magia das palavras de volta à clausura de um livro fechado numa estante qualquer. Pobre da obra literária que não tem suas páginas um pouco gastas de tanto manuseio. Embora saibamos que todo o leitor tem o direito de não aceitar tal viagem, de acordo com seus motivos, suas leituras de mundo, suas marcas.
A alguns felizardos, a literatura foi apresentada desde cedo, porque tiveram um adulto, um familiar ou um educador que propiciou atividades que priorizassem a imaginação, como a leitura de histórias e as brincadeiras de faz-de-conta, o que beneficia o desenvolvimento da criança, pois, segundo Lima (2001), “a criança precisa de oportunidades para desenvolver e enriquecer a linguagem para que possa compreender o mundo a sua volta e agir sobre ele.”
Dentro do universo infantil, a literatura vai muito além do desenvolvimento. Ela permeia a criatividade e a imaginação, o que pode significar viagens aos reinos dos contos de fadas com incríveis aventuras. Lugares em que a imaginação voa para além dos muros e dos quintais. E, nesses espaços comuns, podem se encontrar princesas, príncipes, guerreiros, duendes, fadas, monstros e bruxas para se enfrentar como inimigos mortais ou, quem sabe, tomar um chá das cinco como amigos inseparáveis? Isso tudo dependerá do que o escritor pretendia passar com aquelas páginas e também o que o pequeno leitor entendeu das linhas e entrelinhas.
Já as adolescentes e as mulheres apaixonadas podem viver num mundo de eternos romances em que os rapazes são bonitos, atléticos, inteligentes e, acima de tudo, românticos, como só se encontram em filmes e livros. É a busca pela perfeição que só existe na ficção e no olhar genuíno da ingenuidade.
Por fim, a literatura é arte feita de palavras que manifestam os pensamentos, as ideias e os sentimentos do escritor, que podem nos remeter a lembranças ou à visualização de lugares nunca visitados e a pessoas que jamais nos foram apresentadas. É o lugar para onde fugimos de nós mesmos enquanto sonhamos acordados.
* Íris Simões Bezerra é professora e pós-graduanda em Literatura Infantil e Juvenil: leitura e ensino - Unigranrio.